Dados não mentem. Já a interpretação…

Por Evandro Alampi* | 18/06/2020


Dados são sempre dados, mas a forma de interpretá-los pode gerar diferentes visões e causar os mais diversos sentimentos.

Como alguém que vive de analisar os dados, já me deparei diversas vezes com um mesmo dado gerando conclusões positivas e negativas, ao mesmo tempo. Um dos pilares desse trabalho é a transparência em apresentar de forma clara as duas versões, independentemente da emoção que isso pode gerar a um cliente ou para o público em geral.

Mas, principalmente, em tempos como esse, fica evidente que não é todo o mercado que tem esse cuidado ao divulgar um resultado.

Diariamente observo gráficos tendenciosos, com informações que não batem com a realidade que estamos vivenciando, e até mesmo suprimindo outras análises, que poderiam mudar totalmente a interpretação.

Nesta terça-feira (16/jun), por exemplo, foi veiculada uma matéria a respeito da PMC – Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE (órgão que admiro e respeito desde que me conheço por apaixonado pela Geografia). A chamada era “Vendas do comércio desabam 16,8% em abril, pior resultado da série histórica do IBGE”. No primeiro momento não me surpreendeu, pois o isolamento social impacta significativamente no setor têxtil, combustíveis, entre outros.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a forma com que a matéria apresentou somente indicadores negativos. Quinzenalmente nós avaliamos o desempenho dos Supermercados, Hipermercados e Cash & Carry em todo o Brasil, analisando dados de mais de 25 milhões de vendas. Por isso, já constatamos que o setor vive um pico histórico de vendas. E o dado do IBGE também comprova essa tendência.

Porém, uma simples interpretação negativa gera esse tipo de chamada, afinal, ao longo da reportagem, foi demonstrada somente uma comparação Abril x Março. Obviamente, o resultado seria negativo, visto que março foi um mês de pico de vendas de abastecimento (com crescimento de dois dígitos), por conta da pandemia.

Quando comparamos os resultados do mesmo período do ano anterior, o setor avançou 5,8%, com um resultado acumulado de 4,7% em 2020. Ou seja, o mesmo dado com uma leitura diferente pode gerar pânico ou incerteza. Nesse caso, por exemplo, as vendas não “desabaram”. Elas sofreram um movimento totalmente esperado diante do cenário em que vivemos hoje.

Já olhando pra frente, maio registrou 12,5% mais faturamento que o mesmo mês do ano anterior. E junho já mostrou um aumento de 7,1% somente com o resultado dos primeiros quinze dias do mês. Então, como é possível afirmar que o varejo está desabando? As comparações devem ser justas e considerar contextos semelhantes dentro de um panorama realista. E é assim que dado se torna informação e informação se torna conhecimento relevante.

Por isso, o recado é: Não viva somente de uma fonte de informações. Um olhar mais criterioso e analítico sobre os dados traz o único resultado esperado sobre eles: Fatos. Sem viés ou emoção. Apenas fatos.


*Evandro Alampi é mestre em Geografia e Head de Inteligência na GS Ciência do Consumo